30 de set. de 2011

Clarisse Dançava


Clarisse Dançava

Secular ancila negra,
Sob correntes paralisantes,
Fita flébil, o inquieto infinito.
-Maravilha-se
E assim mesmo… Dança.

Na realidade poder-se-ia dizer…

Clarice nasceu dançando!

Quando ainda muito pequena, pequerrucha – miúda mesmo – já deu seus primeiros passos dançando. Seu desejo de dançar veio da alma, de dentro de si. Por isso ninguém jamais soube por que se manifestou este talento em Clarice.

“Por que tanto dançava Clarice?”

Clarice caminhava dançando, banhava-se dançando; dançando sorria, dançando vivia. Quando um novo dia raiava, encontrava Clarice dançando. Mesmo à noite se Clarice dormia e sonhava; sonhava que estava dançando.

Clarice que muito sorria pouco falava. Não pedia, não reclamava.

“Clarice somente dançava!”

Assim crescia Clarice, dançando. O sol ao surgir parecia vir lhe saudar todos os dias e que só resplandecia para vê-la dançar e sorrir. Na sua alegria Clarice dançava, era assim dançando que a Deus agradecia, e dançando dia adentro permanecia. Enfim, quando o crepúsculo retornava não raro a encontrava dançando.

Quando Clarice dançava, dançava toda Clarice. Dançavam seus olhos, seu dorso, seu sorriso. Até seus crespos cabelos negros, no ar, pareciam dançar.

Aos quinze anos, não era somente devido a suas danças, sempre originais, que Clarice a todos encantava, também pelo seu talhe já belo, esguio, faceiro, um tanto quanto altivo.

Clarice comemorou seus dezesseis anos dançando. Na festa do aniversário de Clarice ninguém dançou. Não, não dançaram os parentes, não dançaram os convidados, nem mesmo os não esperados; porque todos apenas queriam vê-la dançando.

Naquele dia foi tanto o deslumbramento das pessoas que os pais de Clarice sentiram n’alma orgulho e felicidade por terem gerado o talentoso ser. Além do mais, a Clarice deles apenas dançava e estava ali sob todos os seus cuidados.

“Que mal haveria em dançar, não há no mundo inteiro pessoas que se expressam dançando?”

“Que ganham muito, muito dinheiro dançando?”

“Não seria a dança tão antiga quanto o caminhar da humanidade?”

Não, não era possível haver algo do mal no fato da Clarice deles dançar! Além do mais, o mundo parecia mais vívido e menos impuro ante a graciosidade de sua Clarice dançando.

Um dia os pais sentiram falta de Clarice. Procuraram-na. Muitos, nos arredores, houveram visto a pequena passar, porém não souberam informar aonde ela fora. Na verdade, não ousaram atestar se Clarice passara indo ou se Clarice passara vindo. Isto porque se lembraram apenas de tê-la visto dançando.

No dia seguinte, encontraram a irrequieta menininha imersa nos florais do jardim da cidade. Era quase noite e chovia; entretanto, Clarice dançava. Por entre os pingos da chuva seu corpo realizava contornos no espaço. Seus pés pareciam sintonizar com o tamborilar do cair da chuva. De modo tão lindo dançava, que as pessoas paravam para observar e ali permaneciam, aplaudindo Clarice, dançando com Clarice.

Seus próximos sabiam que seus olhos nem-sempre-verdes entravam numa singular apatia quando ela não estava dançando; e sobrevinha-lhe um apático semblante demonstrando que quando ela não podia dançar o seu coração inquietava-se sofrendo, e como era lindo ver Clarice dançar!

Seguindo insuflados conselhos dos amigos, os pais de Clarice levaram-na ao Dr. analista. Então, Clarice pediu ao douto para dançar. Quando Clarice dançou, o médico compreendeu que se havia alguém doente, os doentes eram eles próprios. O que Clarice ofertava a todos era demasiado singelo e puro para aquelas pessoas compreenderem. Toda a clínica aplaudiu e dançou com Clarice.

Decidiu-se então que a pequena Clarice poderia dançar. Decidiu-se como se fosse correto impedir aquele corpinho esbelto de sair cabriolando no ar, misturando-se aos compassos musicais. Assim, desta vez, não foi feita a injunção comum e (Ave!) permitiram que Clarice dançasse.

Agora Clarice era menina-moça mais bela da região. No colégio a queriam dançando. Em casa, os irmãos, os parentes, os vizinhos se reuniam para vê-la dançar.

Certo dia, resolveram levar a terna e ainda ingênua Clarice para uma academia de dança profissional. Nas rápidas semanas seguintes Clarice aprendera os segredos da salsa, os passos marcados da valsa, a disciplina e altivez dos clássicos. “Ao requebrar-se no samba parecia criada entre os bambas”. Dançava o can-can, o vira, o afoxé. Dançava nas óperas, brilhava nas danças dos orixás do candomblé.

O mestre então disse que Clarice estava pronta. Nada mais tinha para ensinar para Clarice.

“Ela é a própria arte da dança..”.

Recomendou-a aos melhores empresários que ele conhecia. Aqueles que foram ver Clarice dançar quase não acreditaram…

Disputaram entre si o direito de contratá-la. Dispuseram e discutiram com os pais dela motivos e acordos contratuais, lançamentos e excursões, passeios, lucros e estadias, que Clarice com seu talento pagaria.

No dia da “première” novamente chovia. Clarice adentrou ao palco, confusa e impressionada com todo aquele aparato. Bem notou como a assistência estava lotada. Lá estavam seus pais, seus amigos, muitos conhecidos e desconhecidos da cidade.

Pouco Clarice havia dançado e eles começaram a aplaudir. Durante todo o tempo eles aplaudiram. Mal se podia ver, mal se podia ouvir. Quando Clarice terminou, aplaudiam todos:

- Aplaudim-na o diretor, os músicos, a platéia e o bilheteiro.

Vieram as grandes excursões e ao mundo Clarice encantou.

Ela não entendia bem por que ficar tão longe dos seus para dançar; mas sempre divinamente dançou. Encantados, os leigos a aplaudiam, os críticos aplaudiam.

- os artistas aplaudiam.

Assim o tempo fora passando. Clarice se destacava nos palcos, nos vídeos, nos jornais. Onde no mundo, a pequena Clarice estava, a bilheteria superfaturava.

Foi então que notaram que Clarice dançava demais…

“Clarice dançava demais, DEMAIS !”

Clarice vivia dançando! Colhia flores dançando? “Beijava as crianças dançando”; Abraçava os amigos dançando…

Estivessem seus pés calçados ou nus…

“Que perigo… Também dançava!”

Alguém, se pedisse para seus passos demonstrar – “Que prejuízo!” – graciosamente partia Clarice dançando.

Foi então “para sua própria segurança” que impuseram para Clarice: Fora do palco ela não poderia dançar (Cláusula contratual).

Também seus pés teriam de ser mantidos calçados, intocados, presos e oleados.

No dia que Clarice dançava na platibanda do topo do edifício…

- A platéia não aplaudia… seus pais não entendiam, seu empresário blasfemava.

Na verdade, ela não estava se importando de estar ali, rompendo cláusulas contratuais.

Da borda da laje do altíssimo edifício de fria arquitetura de cimento e aço, Clarice perscrutou o horizonte e maravilhou-se, pois achou que todo o hemisfério dançava.

Dançavam os astros, dançavam as nuvens, dançavam as marés, dançavam as galeras e as gaivotas, ao ritmo da brisa do mar. Clarice viu também que imersas na mesma brisa fluídica as folhas das copas das árvores dançavam.

Ela agora se sentia mais alegre, liberta; porquanto realmente concebia haver dança em tudo.

“Em tudo? Nem tanto… “

Observou que algo estava inerte lá embaixo.

“Mesmo assim, a seu redor várias pessoas dançavam.”

De repente, pode ver melhor… Era seu próprio corpo!

Mas que importância poderia isto ter? Era apenas uma infinitésima parte de matéria do universo paralisada.

Além do mais, ela nunca compreendera bem essas coisas.

Ela agora finalmente se sentia em um verdadeiro estado de êxtase; fascinada! Percebera que dispunha diante de si de todo o infinito para poder livremente dançar.

Foi assim que a pequena Terpsícore partiu…

- Dançando no ar.

Lázaro Marback D’Oliveira
Extraído o livro “Súmulas do Valor da Vida”


O Cupim


O Cupim

Obrigaram uma moça a se casar com um rapaz, contra a sua vontade. Ela não gostava do marido de jeito nenhum. À noite, quando ele vinha se deitar, tentando abraçá-la, ela descia da rede e ficava de costas. Toda noite era assim. Para ver se aos poucos ela se acostumava, o pai convidou o genro para caçarem no mato, levando-a junto. Mas ela continuava a não querer dormir com o marido. O pai teve uma idéia. Pegou muitos vaga-lumes, “bagapbagawa man” na nossa língua. Sem que a filha percebesse, pregou grande quantidade de vaga-lumes no cupim, que chamamos “txapô”. Fez isso de dia. Atou a rede da filha bem pertinho do munduru, que é um ninho de cupim, e a rede do marido do outro lado. Assim fez um tapiri, uma cabana. Anoiteceu, jantaram, a moça deitou na própria rede. Dormiu. Quando foi no meio da noite, acordou e viu aquele munduru alumiado. Assustou que só vendo e deitou com o marido. Nunca mais largou o marido, e até hoje existe a luz no munduru.

Lenda Indígena – Sem Autor
Extraído do site Desvendar


Muiraquitã


Muiraquitã

Muiraquitã é o nome que os índios davam a pequenos objetos, geralmente representando uma rã, trabalhados em pedra de cor verde, jadeíta ou nefrita, podendo existir em outros minerais e de outras cores. Conhecidos desde os tempos da descoberta, foi entre os séculos XVII e XIX que se tornaram mais procurados, sendo atribuídas qualidades de amuleto ou talismã e ainda virtudes terapêuticas. O muiraquitã atraía sorte para os seus possuidores e também curava quase todas as doenças. Conta a lenda que antigamente havia uma tribo de mulheres guerreiras, as ICAMIABAS, que não tinham marido e não deixavam ninguém se aproximar de sua taba. Manejavam o arco e a flecha com uma perícia extraordinária. Parece que Iací , a lua, as protegia. Uma vez por ano recebiam em sua taba os guerreiros Guacaris, como se fossem seus maridos.

Se nascesse uma criança masculina era entregue aos guerreiros para criá-los, se fosse uma menina ficavam com ela. Naquele dia especial, pouco antes da meia – noite, quando a lua estava quase a pino, dirigiam-se em procissão para o lago, levando nos ombros potes cheios de perfumes que derramavam na água para o banho purificador. À meia- noite mergulhavam no lago e traziam um barro verde, dando formas variadas: de sapo, peixe, tartaruga e outros animais. Mas é a forma de sapo a mais representada por ser a mais original. Elas davam aos Guacaris, que traziam pendurados em seu pescoço, enfiados numa trança de cabelos das noivas, como um amuleto. Até hoje acredita-se que o Muiraquitã traz felicidades a quem o possui, sendo, portanto, considerado como um amuleto de sorte. O muiraquitã deu muito o que falar e gerou muitas controvérsias. Foi contestada inclusive sua origem, que não seria amazônica e sim asiática.

Icamiabas significa “mulheres sem maridos”.

Lenda Indígena – Sem Autor
Extraído do site Desvendar

Iguaçu - as Cataratas que Surgiram do Amor


Iguaçu - as Cataratas que Surgiram do Amor

Distribuída em várias aldeias, às margens do sereno Rio Iguaçu, a tribo dos Caiangangs formava uma poderosa Nação Indígena. Tinham como deuses Tupã, O Deus do Bem e M’Boy, seu filho rebelde, o Deus do Mal. Era este o causador das doenças, tempestades, das pagas nas plantações, além dos ataques de animais ferozes e das demais tribos inimigas. A fim de se protegerem do Deus do Mal, em todas as primaveras, os Caiangangs a ele ofereciam uma bela jovem como esposa, ficando esta impedida para sempre de amar alguém. Apesar do sacrifício, esta escolha era para ela um privilégio, motivo de honra e orgulho. Naípi, filha de um grande cacique, conhecida em todos os cantos por sua beleza, foi desta vez a eleita.

Feliz, aguardava com ansiedade o dia de tornar-se esposa do temido Deus. Iniciaram-se assim os preparativos da grande festa. Convidados chegavam de todas as aldeias para conhecê-la. Entre eles estava Tarobá, valentes guerreiros, famosos e respeitados por suas vitórias. Ocorreu que, talvez pela vontade do bom Deus Tupã, Tarobá e Naípi vieram a se apaixonar, passando a manter encontros secretos às margens do rio. Sem ser notado, M’Boy acompanhava os acontecimentos, aumentando a sua fúria a cada dia. Na véspera da consagração, os jovens encontraram-se novamente às margens do rio. Tarobá preparou uma canoa para fugirem no dia seguinte, enquanto todos adormeciam, fatigados com as danças e festejos e sob efeito das bebidas fermentadas.

Iniciaram a fuga e, já à boa distância do local M’Boy concretizou sua vingança. Lançou seu poderoso corpo no espaço em forma de uma enorme serpente, mergulhando violentamente nas tranqüilas águas e abrindo uma cratera no fundo do rio Iguaçu. Formaram-se assim as cataratas, que tragaram a frágil canoa. Tarobá foi transformado em uma palmeira no alto das quedas e Naípi em uma pedra nas profundezas de suas águas. Do alto, o jovem apaixonado contempla sua amada, sem poder tocá-la. Restando-lhe apenas murmurar seu amor quando a brisa lhe sacode a fronde.

Em todas as primaveras lança suas flores para Naípi, através das águas, como prova de seu amor. A jovem está sempre banhada por um véu de águas claras e frescas, que lhe amenizam o calor de seus sentimentos. Ainda hoje, M’Boy permanece escondido numa gruta escura, vigiando atentamente os jovens apaixonados. Ouve-se dizer que, quando o arco-íris une a palmeira à pedra, pode-se vislumbrar uma luz que dá forma aos dois amantes, podendo-se ouvir murmúrios de amor e lamento.

Lenda Indígena – Sem Autor
Extraído do site Desvendar


O Paraíso Terrestre


O Paraíso Terrestre

A nação indígena dos Caiapós habitava uma região onde não havia o sol nem a lua, tampouco rios ou florestas,ou mesmo o azul do céu. Alimentavam-se apenas de alguns animais e mandioca, pois não conheciam peixes, pássaros ou frutas. Certo dia, estando um índio a perseguir um tatu canastra, acabou por distanciar-se de sua aldeia. Inacreditavelmente, à medida que este se afastava, sua caça crescia cada vez mais. Já próximo de alcançá-la, o tatu rapidamente cavou a terra, desaparecendo dentro dela. Sendo uma imensa cova, o indígena decidiu seguir o animal, ficando surpreso ao perceber que, ao final da escuridão, brilhava uma faixa de luz. Chegando até ela, maravilhado, viu que lá existia um outro mundo, com um céu muito azul e o sol a iluminar e a aquecer as criaturas; na água muitos peixes coloridos e tartarugas.



Nos lindos campos floridos destacavam-se as frágeis borboletas; florestas exuberantes abrigavam belíssimos animais e insetos exóticos, contendo ainda diversas árvores carregadas de frutos. Os pássaros embelezavam o espaço com suas lindas plumagens. Deslumbrado, o índio ficou a admirar aquele paraíso, até o cair da noite. Entristecido ao acompanhar o pôr do sol, pensou em retornar, mas já estava escuro…Novamente surge à sua frente outro cenário maravilhoso: uma enorme lua nasce detrás das montanhas, clareando com sua luz de prata toda a natureza. Acima dela multidões de estrelas faziam o céu brilhar. Quanta beleza! E assim permaneceu, até que a lua se foi, surgindo novamente o sol. Muito emocionado, o índio voltou à tribo e relatou as maravilhas que viera a conhecer. O grande pajé Caiapó, diante do entusiasmo de seu povo, consentiu que todos seguissem um outro tatu, descendo um a um pela sua cova através de uma imensa corda, até o paraíso terrestre. Lá seria o magnífico Mundo Novo, onde todos viveriam felizes.



Lenda Indígena – Sem Autor
Extraído do site Desvendar


Kuát e Iaê – A Conquista do Dia


Kuát e Iaê – A Conquista do Dia

No principio só havia a noite. Os irmãos Kuát e Iaê – o Sol e a Lua – já haviam sido criados, mas não sabiam como conquistar o dia. Este pertencia a Urubutsim (Urubu-rei), o chefe dos pássaros. Certo dia os irmãos elaboraram um plano para captura-lo. Construíram um boneco de palha em forma de uma anta, onde depositaram detritos para a criação de algumas larvas. Conforme seu pedido, as moscas voaram até as aves, anunciando o grande banquete que havia por lá, levando também a elas um pouco daquelas larvas, seu alimento preferido, para convencê-las. E tudo ocorreu conforme Kuát e Iaê haviam previsto.

Ao notarem a chegada de Urubutsim, os irmãos agarraram-no pelos pés e o prenderam, exigindo que este lhes entregasse o dia em troca de sua liberdade. O prisioneiro resistiu por muito tempo, mas acabou cedendo. Solicitou então ao amigo Jacu que este se enfeitasse com penas de araras vermelhas, canitar e brincos, voasse à aldeia dos pássaros e trouxesse o que os irmãos queriam. Pouco tempo depois, descia o Jacu com o dia, deixando atrás de si um magnífico rastro de luz, que aos poucos tudo iluminou. O chefe dos pássaros foi libertado e desde então, pela manhã, surge radiante o dia e à tarde vai se esvaindo, até o anoitecer.

Lenda Indigena – Sem Autor
Extraído do site Desvendar


Iamulumulu - a Formação dos Rios


Iamulumulu - a Formação dos Rios

Savuru era um espírito que possuía duas esposas. A pedido dos irmãos Sol e Lua, que as cobiçavam, as ariranhas o mataram, ficando sua esposa mais velha com o sol e a outra com a lua. Seguiram então os casais em direção à aldeia de Kanutsipei. Durante o caminho, os irmãos encontraram dificuldades e necessitaram da ajuda de outros espíritos: Iumulumulu lhes curou a impotência, Ierêp fez com que neles nascesse o ciúme das esposas e, uma vez cansados, pediram a Uiaó algo que os fizessem adormecer. No dia seguinte, dispostos, retomaram a caminhada. Chegando ao local pretendido, estavam sedentos e pediram água a Kanutsipei.

A água, porém, estava suja. O irmão Lua, tomando a forma de um beija-flor, voou rapidamente à procura de boa água. Ao voltar contou-lhes que o espírito os enganara, mantendo escondidos muitos potes com a mais pura água. Contrariados, os casais retornaram a sua aldeia, contando a todos o que ocorrera. O Sol e a Lua uniram-se a vários espíritos, Vanivani, Iananá, Kanaratê, os zunidores Hori-hori, invocando também os espíritos das águas que habitavam a copa do Jatobá. Chamaram ainda as máscaras Jakui-katu, Mearatsim, Ivat, Jakuiaép e Tauari. Reunidos, dançaram e resolveram voltar à aldeia de Kanutsipei para tomarem posse de sua água, quebrando todos os potes, conduzindo-a a outras regiões. Mearatsim, o primeiro a chegar, cantou para espantar o dono do local.

Chegaram então os outros espíritos, à medida que os potes foram quebrados, formou-se ali uma grande lagoa, de onde cada um dos espíritos criou um rio. Assim, o Sol criou o Rio Ronuro; Vani-vani formou o Rio Maritsauá; Kanaratê, o Paranajuva; Tracajá, o Kuluene e Iananá, um afluente do Ronuro. A formação dos rios não agradou ao Sol, pois todos corriam para o Morena, a região sagrada dos espíritos. Iniciou-se ali uma grande confusão, em meio à qual a Lua foi engolida por um grande peixe. O Sol, desesperado, saiu à procura do irmão, no ventre dos peixes que encontrava. Chegou a capturar o Tucunaré, o Matrinxã, o Pirarara e a Piranha. Mas havia sido o Jacunaum que a engolira, informou o Acará. E ambos, unidos, partiram à caça do peixe.

Pediram a Tapera (andorinha do campo) que lhes conseguisse um grande anzol, ocultando-o num charuto. O Acará nadou à procura de Jacunaum, oferecendo-lhe fumo. Desta maneira, o Sol conseguiu fisgá-lo. Entretanto, dentro do peixe, restavam apenas os ossos de seu irmão. Desejando ardentemente que a Lua revivesse, o Sol arrumou no chão seu esqueleto, cobrindo-o com as folhas perfumadas do Enemeóp. Aos poucos, como por encanto, a carne foi surgindo, revestindo os ossos até formar um novo corpo. Faltava-lhe ainda a vida. O Sol então introduziu um mosquitinho em sua narina, provocando-lhe um espirro, que a fez finalmente despertar. Assim foram criados os rios e, a partir daí, iniciou-se a prática da pajelança, tendo sido o Sol o primeiro pajé.



Lenda Indígena – Sem Autor
Extraído do site Desvendar


Mumuru – A Estrela dos Lagos


Mumuru – A Estrela dos Lagos

Maraí, uma jovem e bela índia, muito amava a natureza. À noite, ficava a contemplar a chegada da Lua e das estrelas. Nasceu-lhe, então, um forte desejo de tornar-se uma estrela. Perguntou ao pai como surgiam aqueles pontinhos brilhantes no céu e, com grande alegria, veio a saber que Jacy, a Lua, ouvia os desejos das moças e, ao se esconder atrás das montanhas, transformava-as em estrelas.

Muitos dias se passaram sem que a jovem realizasse seu sonho. Resolveu então aguardar a chegada da Lua junto aos peixes do lago. Assim que esta apareceu, Maraí encantou-se com sua imagem refletida na água, sendo atraída para dentro do lago, de onde não mais voltou.

A pedido dos peixes, pássaros e outros animais, Maraí não foi levada para o céu. Jacy transformou-a numa bela planta, ganhando o nome de Mumuru, a vitória-régia.

Lenda Indígena – Sem Autor
Extraído do site Desvendar